Pedro Werneck: transformando responsabilidade social em projeto de vida

“Servir ao próximo é um privilégio que preenche o nosso coração de alegria e expande o sentido da nossa própria existência, na medida que a gente compreende que não estamos vivendo somente a nossa própria vida, o nosso próprio entorno”, disse Pedro Werneck, presidente do Instituto da Criança.

Tudo começou com um gesto de empatia em 1994, quando uma família se sensibilizou com a situação vulnerável de algumas crianças e ofereceu amparo. 

Mais de 30 anos depois, após uma jornada extensa de mobilização social, o Instituto da Criança se posiciona como uma das organizações sociais mais relevantes, não só do país, mas de todo planeta.

A história dessa organização — a 62ª mais relevante do mundo, conforme o ranking mundial “Top 100 ONGs 2024”, do thedotgood — está diretamente entrelaçada à trajetória de Pedro Werneck, seu cofundador e presidente.

Sejam bem-vindos ao projeto “Eu Sou 3° Setor”, criado para dar voz a lideranças simbólicas da sociedade civil e evidenciar o poder de transformação das organizações sociais. 

Eu sou Lucas Neves, jornalista do Observatório do Terceiro Setor, e neste episódio conversamos com Pedro Werneck.

O desejo de ajudar o próximo

Em meados dos anos 90, os irmãos, Carlos, Zeca, Maria Luiza e Pedro Werneck conheceram uma família em situação de vulnerabilidade que abrigava diversas crianças. Comovidos com a situação e guiados pela empatia, os jovens ofereceram suporte, a partir do auxílio de um grupo de amigos e familiares. 

“Conseguimos uma casa para a família, conseguimos escola, plano de saúde, roupas, móveis, utensílios…”, comenta Pedro Werneck. Segundo ele, o grupo mobilizado foi capaz de, em um período curto de tempo, revolucionar o caos que aquela família vivia, gerando bem-estar e dignidade.

“Toda a transformação, em poucos meses, nos fez crer que era possível fazer mais. Foi assim que procuramos a segunda ação do movimento e encontramos o Lar Santa Catarina”. Localizado no Rio de Janeiro, o Lar Santa Catarina é uma organização que acolhe, orienta e ampara jovens com déficit cognitivo e/ou motor em suas especificidades.

Essas iniciativas foram o embrião do que se tornaria, em 1998, a formalização do Instituto da Criança. “Nós começamos a falar, ‘puxa vida, a gente tem conseguido realizar tantas ações, tantas mudanças, tantas transformações, e nós não temos nenhum nome, não temos um escritório, uma conta no banco, pessoas trabalhando, não temos nada’.”

Segundo Pedro, a ideia era ser algo maior que um movimento e uma ação “efêmera”. Mesmo que já estivesse gerando resultados e inspirando outras pessoas, ele sentia que poderiam dar um passo ainda maior.

A escolha do nome

Pedro também explicou que a escolha do nome Instituto da Criança simbolizava exatamente o foco das ações naquele momento. No entanto, em 2003, o instituto expandiu sua atuação, criando iniciativas voltadas aos jovens e adultos. 

“Em um determinado momento nas nossas reflexões fizemos a leitura de que, para as crianças estarem bem, era preciso também que os pais assim estivessem” — Pedro Werneck

Assim é criado o programa Espaço Cidadão, voltado à educação da família e abordando temas como cidadania, planejamento familiar, relacionamento interpessoal, alcoolismo e drogas. O objetivo do projeto é promover um espaço de reflexão, diálogo e esclarecimentos sobre questões fundamentais para o exercício da cidadania.

Mais de 17 mil pessoas já passaram pelo Espaço Cidadão e Pedro lembrou que os encontros semanais do programa ocorrem até hoje. “Ele se encerra com uma celebração em forma de formatura. Entregamos um certificado e fazemos todo um misancene para elevar a autoestima dos participantes e dar a eles o reconhecimento merecido”. 

Um momento de virada no Instituto da Criança

Durante a entrevista, Pedro contou que 2007 marcou outro momento importante para o instituto. Foi neste ano que ele tomou uma decisão significativa para o futuro da sua carreira e da organização: deixar o mundo empresarial, onde trabalhava até então, para seguir somente no Instituto da Criança.

“Criaram um fundo para me remunerar a fim que eu pudesse trabalhar integralmente no Instituto da Criança.  Eu vendi a minha empresa e, no começo de 2008, ingressei no Instituto da Criança de forma integral, com o objetivo de trazer boas práticas corporativas, implantar processos que pudessem dar maior credibilidade e atrair as empresas para associar as suas marcas, os seus nomes e ao nosso negócio social”, salienta.

Ainda em 2007, o Instituto da Criança passou a ter a qualificação fiscal de OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público). Desse modo, ele se tornou apto a oferecer dedução fiscal (IR) para pessoas jurídicas, celebrar termos de parceria com o Poder Público e ganhou a possibilidade de receber bens apreendidos, abandonados ou disponíveis, administrados pela Secretaria da Receita Federal.

Atualmente, o Instituto da Criança possui diferentes frentes de atuação. Com a missão de inspirar o exercício da solidariedade para transformar vidas a partir da gestão de projetos sociais, o instituto atua, principalmente, promovendo a conexão entre empresas e pessoas a essas iniciativas.

Além disso, o instituto trabalha com uma rede de mais de 1.000 organizações da sociedade civil (OSCs) e movimentos sociais, os quais atuam como casas de acolhimento, abrigos, creches e escolas comunitárias em mais 24 estados do Brasil e no Distrito Federal.

Ao se incluírem na rede, essas organizações e movimentos recebem diversos benefícios, como: 

  • participação em programas de capacitação, assessoria em gestão; 
  • articulação de rede; serviço social; 
  • captação de recursos para projetos incentivados;
  • investimento de recursos;

Uma jornada repleta de aprendizados

A trajetória de Pedro Werneck no terceiro setor é extensa e cheia de conquistas. Pensando nisso, seria um verdadeiro crime não perguntar sobre os principais aprendizados que ele adquiriu ao longo dos seus mais de 30 anos de trabalho.

A resposta não poderia ser outra. Pedro afirmou que a lista de lições e conhecimentos é imensa, destacando que os aprendizados ainda ocorrem diariamente, uma vez que ele considera o trabalho no Instituto da Criança “uma fonte valiosa de conhecimento”.

“Sobretudo, no sentido da plena compreensão de que servir ao próximo é um privilégio que preenche o nosso coração de alegria e expande o sentido da nossa própria existência, na medida que a gente compreende que não estamos vivendo somente a nossa própria vida, o nosso próprio entorno”, disse. Para ele, essa foi uma das principais lições.

“ Servir ao próximo é um privilégio que preenche o nosso coração de alegria e expande o sentido da nossa própria existência” — Pedro Werneck

Outro aprendizado citado diz respeito à necessidade de conscientizar a sociedade. Segundo Pedro, é comum que, no escopo de responsabilidade social, as pessoas e empresas não criem ações de impacto por não terem sempre uma razão concreta para as executar, como uma meta clara ou uma penalidade caso seja preterida. 

“Se a sua consciência não te impulsionar, você não vai fazer. Então, o primeiro passo é a gente trazer para as pessoas a consciência. Isso é um exemplo de aprendizado que o Instituto da Criança nos traz”, conclui.

A conversa com Pedro Werneck torna evidente os motivos para o Instituto da Criança se posicionar como uma das organizações de maior impacto no Brasil. A partir da sua visão empática e estratégica, somada à sua ambição por um país mais responsável socialmente, Pedro lidera o instituto com o propósito claro: estimular a solidariedade.

Por Lucas Neves
Redação Observatório 3º Setor

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